segunda-feira, 5 de março de 2012

Anemias Microcíticas e Hipocrômicas: importância do diagnóstico diferencial



A anemia pode ser definida como uma redução nos níveis de hemoglobina no sangue. Entretanto, definir os níveis normais de hemoglobina não é tão simples, uma vez que cada pessoa possui concentrações adequadas para sua massa muscular ou tecido metabolicamente ativo. A Organização Mundial da Saúde (OMS), baseando-se em um estudo de âmbito mundial, estabeleceu parâmetros ou valores de referência para hemoglobina a fim de orientar a prática clínica, sendo eles: Hb>13 g/dl para homens, Hb>12 g/dl para mulheres e Hb>11 g/dl para grávidas e crianças de seis meses a seis anos (FAILACE, 2009; MATOS et al., 2008).

Os índices hematimétricos, associados às características dos eritrócitos são indicadores importantes da natureza da anemia e permitem sua classificação em microcítica / normocítica / macrocítica (VCM) e hipocrômicas / normocrômicas (HCM). As anemias microcíticas e hipocrômicas são as mais prevalentes no mundo e sua causa é o descompasso entre a síntese de hemoglobina e a proliferação eritróide, tornando as hemácias menores pela falta de conteúdo em seu estroma elástico (OLIVEIRA; POLI NETO, 2004; GUALANDRO, 2000).

Diversas causas podem levar a essa situação, como a deficiência de ferro para compor a síntese de hemoglobina, decorrida tanto da deficiência nutricional ou absortiva, quanto da perda crônica de sangue. Além disso, anemias microcíticas e hipocrômicas também podem ser causadas pela perda de oferta de ferro à eritropoiese, como ocorre nas anemias de doenças crônicas; pelos defeitos genéticos quantitativos na síntese de cadeias globínicas, como nas talassemias; e por defeitos na síntese do heme, caso da anemia sideroblástica congênita (FAILACE, 2009).

Vê-se, portanto, que embora a carência de ferro seja o principal motivo das anemias microcíticas e hipocrômicas, não é o único, sendo que existem diversas causas que podem induzir esse quadro clínico, cada uma delas com patogênese, prognóstico e tratamento inteiramente diferentes. Nesse contexto, se reveste de importância o diagnóstico diferencial dessas anemias, realizado através do próprio eritograma, de exames que avaliam o metabolismo do ferro, da contagem de reticulócitos e da eletroforese da hemoglobina (NAOUM, 2001; MATOS et al., 2008).

No que se refere ao eritrograma, um grande auxiliar na diferenciação das anemias microcíticas e hipocrômicas é o índice de anisocitose eritrocitária (RDW), que representa a heterogeneidade de distribuição do tamanho das hemácias, diferenciando aquelas anemias com uma população homogênea de eritrócitos, entre elas a talassemia menor e anemia de doença crônica, daquelas que apresentam uma população heterogênea (anemia ferropriva) (MATOS et al., 2008). Além disso, a análise da lâmina ao microscópio também auxilia nessa diferenciação, pois a avaliação da morfologia eritrocitária revela alguns poiquilócitos comuns a cada uma das anemias microcíticas e hipocrômicas, principalmente no que tange à anemia ferropriva e talassemias. E, ainda, a análise microscópica ajuda a confirmar a hipocromia indicada pelo aparelho (NAOUM, 2011; OLIVEIRA; POLI NETO, 2004).

No esfregaço sanguíneo abaixo pode se observar hemácias microcíticas e hipocrômicas, além de anisocitose e poiquilocitose. Essa lâmina é típica de um paciente com anemia ferropriva:



Já a tabela abaixo mostra eritrogramas típicos de pacientes com anemia ferropriva (caso 1) e talassemia beta menor (caso 2):



O ‘status’ de ferro na investigação laboratorial compõem-se de três dosagens bioquímicas: ferro sérico, ferritina e capacidade total de ligação do ferro e, ainda, da avaliação da saturação da transferrina, que é obtida através de um cálculo matemático (Ferro sérico x 100 / CTLF) (NAOUM, 2011). A partir disso, é possível supor as principais causas de anemia microcítica e hipocrômica, conforme os seguintes índices:


Quando os resultados dessa avaliação não são suficientes, as eletroforeses quantitativas e qualitativas da hemoglobina podem auxiliar na definição dos distintos tipos de talassemias que levam à microcitose e hipocromia. Já a contagem de reticulócitos pode auxiliar na diferenciação entre anemia sideroblástica (reticulócitos <0,5%), talassemias (presença de reticulocitose) e anemia por intoxicação por chumbo (reticulócitos normais ou diminuídos). A anemia por intoxicação por chumbo pode ser diagnosticada, ainda, pela dosagem de chumbo sanguíneo (NAOUM, 2011; FAILACE, 2009).

É de extrema importância que os profissionais da saúde compreendam a importância da realização dos exames de diagnóstico diferencial das anemias microcíticas e hipocrômicas. Isso porque, um diagnóstico incorreto pode levar à um tratamento equivocado, que além de não trazer benefícios à condição clínica do paciente, pode prejudica-lo imensamente.

Autores: Andressa Soares, Camila Justen, Camila Simon, Carla Pause, Daiane Uecker, Paula Perassolo, Tanara Martins, Tanise Lasch



FONTES:
GUALANDRO, Sandra F. M. Diagnóstico diferencial das anemias. Jornal Brasileiro de Nefrologia, v. 22, supl. 5, p. 7 – 10, 2000.

FAILACE, Renato (org). Hemograma: manual de interpretação. 5 ed. Porto Alegre: Artmed, 2009.

MATOS, Januária F. et al. Índice de anisocitose eritrocitária (RDW): diferenciação das anemias microcíticas e hipocrômicas. Revista Brasileira de Hematologia e Hemoterapia, v. 30, n. 2, 2008.
NAOUM, Paulo César. Diagnóstico diferencial das anemias microcíticas e hipocrômicas. Revista Brasileira de Análises Clínicas, v. 43, n. 2, p. 160 – 162, 2011.

OLIVEIRA, Raimundo Antônio Gomes; POLI NETO, Adelino. Anemias e Leucemias: Conceitos Básicos e Diagnóstico por Técnicas Laboratoriais. São Paulo: Roca, 2004.

5 comentários:

  1. Ola! Primeiramente Parabéns por este blog. Bem, ando me sentindo muito fraca, dor nas pernas, nas articulações das maos, nas juntas dos dedos, muita falta de ar e indisposição, foi tudo muito de repente. Fiz alguns exames, este é o resultado. gostaria de saber sua opinião. Abraço.
    ERITROGRAMA
    LEUCOGRAMA
    ERITRÓCITOS....: 4,09
    milhões/mm3
    LEUCÓCITOS....: 4.200
    /mm3
    VOL.GLOBULAR/HT: 28,40
    %
    BLASTOS.......: 0,0
    0
    HEMOGLOBINA....: 8,88
    g/dL
    PROMIELÓCITOS.: 0,0
    0
    CHCM...........: 31,3
    %
    MIELÓCITOS....: 0,0
    0
    VCM............: 69,4
    u3
    METAMIELÓCITOS: 0,0
    0
    HCM............: 21,7
    ug
    BASTONADOS....: 0,4
    17
    RDW............: 16,80
    SEGMENTADOS...: 59,0
    2478
    BASÓFILOS.....: 0,0
    0
    EOSINÓFILOS...: 0,5
    21
    MONÓCITOS.....: 5,4
    227
    LINFÓCITOS....: 34,7
    1457
    PLAQUETAS.....: 329000 mm3
    PDW...........: 13,5

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  2. OLÁ TAMBÉM TENHO DÚVIDAS, VOU PASSAR NO MEDICO SÓ O MES QUE VEM,E ESTOU PREOCUPADA, POR FAVOR ME AJUDEM
    SERIE VERMELHA
    ERITROCITOS 4,95
    HEMOGLOBINA 10,2
    HEMATOCRITO 32,8
    VCM 66,3
    HCM 20,6
    CHCM 31,1
    RDW 15,6

    SÉRIE BRANCA:
    LEUCOCITOS 100 955,0
    NEUTROFILOS 64,6 6.169
    EOSINÓFILOS 1,3 124
    BASÓFILOS 0,4 38
    LINFÓCITOS 25,0 2.388
    MONOCITOS 8,7 831

    CONTAGEM DE PLAQUETAS 357.000

    OBRIGADA

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  3. ola estou em duvidas com oi exame da minha filha
    eritrocitos 4.310.000
    hemoglobina 7,7
    volume globular 28,2
    vcm 65,4
    hb.cm 17,9
    conc hb. corpusc. media 27,3
    rdw 18,3

    leucocitos 4.030
    eosinofilos 2%
    basofilos1%
    linfocitos 29%
    linfocitos atipicos 0%
    monocitos 10%
    mielocitos 0%
    metamielocitos0%
    bastonetes 2%
    segmentados 56%
    neutrofilos 58%

    plaquetas 261.000


    obrigada

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  4. ola..minha filha tem 2 anos e 5 meses e esses foram os dados da serie vermelha:
    HEMACIAS:5 MI
    HEMOGLOBINA:10,4
    HEMATOCRITO 30%
    VCM 60
    HCM 20,8
    CHCM 34,7
    RDW 15,8%
    OBSERVAÇÃO:ANISOCITOSE++MICROCITOSE++HIPOCROMIA++

    Devo me preocupar?

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  5. POIS E SE VC SOUBER OQ E POSTA AQ MINHA NETA TB TEM ANISOCITOSE MICROCITOS HIPOCROMIA VALEU

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